Quanto cobrar por uma tradução?

Nosso colega Jorge Rodrigues, moderador do grupo “Tradutores, Intérpretes e Curiosos”, publicou no grupo esta beleza de texto. Muito realista e tão perto da perfeição quanto possível. Parabéns a ele.

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[Quanto cobrar por uma tradução?]
Preparei este texto para os alunos do sexto semestre do curso de Tradução e Interpretação da UNISANTOS.
Aí pensei que poderia ser útil para alguém mais e decidi publicar aqui.
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Quanto cobrar por uma tradução?
A conversa de ontem sobre preços de tradução me deu a ideia de escrever algo sobre o assunto.
Desculpem-me pelo textão, mas a conversa é longa. 
Quando alguém pergunta (em geral, iniciantes) nos grupos de tradução do Facebook quanto cobrar por uma tradução, quase sempre aparece quem sugira cobrar pela tabela de preços orientativos do SINTRA (Sindicato Nacional dos Tradutores), que está aqui:

http://www.sintra.org.br/site/?p=c&pag=precos

Só que essa resposta, na prática, é a melhor maneira de não responder o que de fato interessa. Pior: pode atrapalhar quem está começando.
Vou tratar aqui das traduções técnicas ou comerciais não juramentadas, que são as que conheço melhor. Tradução literária é outro mundo, outra forma de trabalhar, outro sistema de mensurar e cobrar pelo nosso trabalho. Então não vou me meter nisso.
Os valores sugeridos na tabela do SINTRA são R$ 0,38 por palavra de texto original para traduções (idioma estrangeiro-português) e R$ 0,45 para versões (português-idioma estrangeiro). Para traduções de um idioma estrangeiro a outro idioma estrangeiro (dupla versão) o preço sugerido é R$ 0,50 por palavra de texto original.
Mas, porém, contudo, todavia, no entanto…
Esses valores são o máximo que o mercado comporta e incluem todo o processo tradutório (pesquisa terminológica, tradução, revisão e leitura de prova) e, no mundo real, só agências conseguem cobrá-los de clientes finais, pelo menos no Brasil.
Pouquíssimos tradutores conseguem trabalhar nesse nível de preços no mercado interno, e mesmo assim após anos de prática, especialização e prospecção e filtragem de clientes, e ainda assim apenas com clientes diretos.
No mercado brasileiro, no caso de tradutores que trabalham para agências de tradução, a realidade é outra.
Os valores praticados na prática (sic) variam de R$ 0,03 a R$ 0,12 por palavra, tanto para tradução quanto para versão.
Minha opinião: acho qualquer valor abaixo de R$ 0,06 por palavra indecente demais até para pensar em aceitar. Iniciantes talentosos e bem formados podem conseguir de R$ 0,06 a 0,08. Tradutores mais experientes, de R$ 0,09 a R$ 0,12 por palavra.
Não conheço agências no Brasil que paguem mais de R$ 0,12 por palavra. Se existem, quem trabalha com elas não divulga os nomes nem sob tortura, para não pôr o próprio ganha-pão em risco.
Essa é a realidade brasileira.
Mas, porém, contudo, todavia, no entanto… (que falta de criatividade e originalidade…).
No mercado internacional as coisas são BEM diferentes e as perspectivas são MUITO melhores.
As agências de tradução “bottomfeeders” (sanguessugas), que são basicamente as agências asiáticas e europeias de baixo custo, pagam cerca de US$ 0,05 por palavra.
Ora, pelo câmbio de hoje (US$ 1,00 = R$ 3,20) é fácil perceber que as piores agências internacionais para se trabalhar pagam bem mais do que as melhores agências brasileiras. E esses valores são o mínimo do mínimo do mínimo que dá para conseguir lá fora.
Mas pode-se ganhar bem mais.
Tradutores iniciantes (até dois anos de experiência) e juniores (de três a cinco anos de experiência) conseguem ganhar em torno de US$ 0,06 a US$ 0,08 por palavra.
Tradutores plenos (de seis a oito anos de experiência) chegam à faixa de US$ 0,09 a US$ 0,12 por palavra.
Tradutores sêniores (acima de nove anos de experiência) e especialistas podem conseguir chegar a US$ 0,15 ou até US$ 0,20 por palavra em certos nichos prime (tradução de marketing e transcriação, por exemplo).
Logo, quem quiser ganhar dinheiro de verdade com tradução deve visar ao mercado externo. O mercado brasileiro, para traduções não juramentadas, já deu o que tinha que dar.
Falando em traduções juramentadas, uma última observação: a crença de que só os tradutores juramentados conseguem viver de tradução é falsa. Vivo de tradução (e relativamente bem, até) desde 1992 e só passei no concurso público para tradutor juramentado em 2013.
Espero que esses comentários os ajudem a enfrentar o mundo real tradutório com mais segurança e confiança.

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